O Brasil e o protecionismo de Trump


É verdade que a recusa dos Estados Unidos em assinar o Tratado da Parceria Transpacífica (TPP), determinada ontem pelo presidente Donald Trump (foto), abriu uma oportunidade comercial para o Brasil. Mas é preciso tomar cuidado com as celebrações antecipadas. Haverá boas chances em mercados deixados de lado pelos americanos. Nos Estados Unidos, especificamente, nada garante que o nos daremos bem com o novo protecionismo do governo Trump. O histórico das relações comerciais Brasil-Estados Unidos sofreu diversos solavancos nos últimos anos. Comparando 2006 a 2015, segundo os últimos dados fechados do Ministério das Relações Exteriores, as exportações brasileiras para os americanos caíram ligeiramente, de US$ 24,5 bilhões (18% do total) para US$ 24 bilhões (13%). As importações, ao contrário, cresceram de US$ 14,7 bilhões (16%) para US$ 26,5 bilhões (15%) – atingiram o pico de US$ 36 bilhões em 2013. Graças à alta de 81% nas importações, o intercâmbio comercial com os Estados Unidos subiu 30%. Mas sua participação no total do comércio exterior brasileiro caiu de 17% para 14%. O quadro resulta não apenas da progressiva relevância de outros mercados, em especial o chinês, no comércio exterior brasileiro, mas também da política atabalhoada na negociação com os americanos. Ao contrário de países como Chile, Peru e Colômbia, o Brasil preferiu ao longo das últimas décadas a abordagem multilateral nas relações comerciais com os americanos. No governo Fernando Henrique, o Itamaraty pretendia usar nossa posição como líder do Mercosul para alavancar a Área de Livre Comércio das Américas (Alca). O naufrágio da Alca levou o governo Lula a apostar em outros parceiros. Ganhou fôlego o tratado de livre-comércio com a União Europeia, aumentou o comércio com a China, África e com países da América Latina. Em nenhum momento, a prioridade foi estabelecer um acordo bilateral com os Estados Unidos. Desde o início, tal saída teria sido mais eficaz para brasileiros e americanos, dois mercados continentais. Dentro do espírito de globalização e abertura de fronteiras que vigorou no mundo entre a queda do muro de Berlim e a crise de 2008, teria sido bem mais simples firmar um acordo bilateral com os americanos que apostar nas soluções multilaterais. A fidelidade ao Mercosul e ao multilateralismo, porém, jamais deixou tal ideia prosperar. É essa, justamente, a oportunidade aberta pelo abandono do TPP pelos americanos. Mas qual seria a eficácia dela agora, quando o governo Trump declara explicitamente sua intenção de proteger a indústria americana? Uma análise inicial traz bons motivos para dúvidas. Primeiro, o Brasil simplesmente não está no radar americano. Representamos, se tanto, pouco mais de 1% das importações (17ª posição entre todos os países) e pouco menos de 2% das exportações (11ª) dos Estados Unidos. Ambos os indicadores têm caído nos últimos anos. No interesse americano estão na nossa frente não apenas os óbvios China, Canadá e México, mas também Reino Unido, Índia, Coreia, França, Alemanha e até mesmo Bélgica e Holanda. Segundo, nossa pauta comercial é composta por produtos que serão alvo prioritário do protecionismo na Era Trump. Em 2015, mais de 60% das exportações brasileiras para os Estados Unidos foram compostas por produtos manufaturados. Lembre que Trump foi eleito justamente com a plataforma de trazer empregos de volta para a indústria americana. É nas matérias-primas que temos o exemplo mais eloquente do protecionismo americano. Algo como 13% das nossas exportações para os Estados Unidos são de ferro e aço. Em março do ano passado, mesmo antes de Trump ser sequer candidato, o Departamenteo de Comércio impôs barreiras tarifária de 39% ao aço brasileiro laminado. Em setembro, o chanceler José Serra decidiu recorrer da medida à Organização Mundial do Comércio (OMC). O secretário do Comércio de Trump, Wilbur Ross, vem da indústria siderúrgica e é conhecido como um defensor da imposição de nova barreiras para defender a produção de aço americano, concentrada nos estados do Meio Oeste responsáveis pela eleição de Trump, sobretudo a Pensilvânia. Estará agora ele disposto a abrir mercados para o aço brasileiro? É histórico o protecionismo agrícola dos Estados Unidos, que jamais permitiu que as exportações de nosso setor mais competitivo tivessem uma relevância maior para os americanos. Em 2016, os Estados Unidos representaram apenas 7,4% dos US$ 85 bilhões exportados pelo agronegócio brasileiro – ante cerca de 13% das exportações totais. À medida que os Estados Unidos sofrerem as consequências das tensões comerciais com China e México, poderá crescer o interesse por produtos brasileiros. Individualmente, diversos exportadores poderão se beneficiar da Era Trump. Mas é um equívoco acreditar que, como um todo, o protecionismo americano nos fará bem. Nunca fez. Não é agora que começará a fazer.