Por que Trump assusta tanto?


A posse de Donald Trump despertou reações de todo tipo – os preocupados, os assustados, os chocados, os apaixonados, os revoltados, os violentos. No mesmo dia em que assumiu, mais de 200 manifestantes foram presos. Pelos primeiros passos do governo, vislumbra-se um clima de conflito, num país irremediavelmente partido ao meio. Sem experiência de governo, Trump começou a presidência como se ainda estivesse em campanha. Suas primeiras declarações, atitudes e decisões deixam claro que o país mais poderoso do planeta está nas mãos de um presidente como nenhum outro. Não são apenas as bravatas de Trump que preocupam. São suas ideias, seu projeto de país. Quanto dessa reação se justifica? Por que Trump assusta tanta gente? Primeiro, pela personalidade. Trump não perde o ar de menino rico, que herdou uma fortuna e sempre quis que o mundo se curvasse a seus pés. Sempre fez negócios ou política pelo confronto. Há repulsa a seu estilo fanfarrão, a seu histórico com negros e mulheres, a seu desprezo pelas boas maneiras e até mesmo a seu penteado. É esse o sentimento que move o repúdio a Trump nas redes sociais e que levou ontem, às ruas de Washington e de diversas cidades americanas, uma multidão de manifestantes na Marcha das Mulheres (foto), em número bem superior ao dia da posse. Mas nenhuma das características pessoais de Trump terá consequência maior, se elas forem moderadas pelo gabinete ou pelas demais instituições do Estado. Seu jeitão de galo de briga, seu exibicionismo e seu comportamento sexual não determinam, por si sós, o resultado de seu governo. Na prática, são tão relevantes quanto o comprimento de seus dedos ou a cor dos seus cabelos. Um segundo nível de preocupação está nas palavras de Trump. No discurso de posse, ele adotou o mesmo tom populista da campanha. Falou em devolver o poder de Washington para o povo. Usou o termo “carnificina” para se referir à situação atual do país. Mais que isso, o discurso – escrito pelos assessores Stephen Miller e Stephen Bannon – contém referências que despertam fantasmas da história americana. “America First” (América primeiro) era o lema do “movimento” com que o aviador Charles Lindbergh pretendia enfrentar Franklin Roosevelt e impedir os Estados Unidos de enfrentar o nazifascimo na Segunda Guerra. Mais que simpatia, Lindbergh mantinha relações com a Alemanha de Hitler e fez um célebre discurso antissemita que o lançou em desgraça. Ao incluir os termos “America First” e “movimento” na fala de Trump, Bannon faz um aceno explícito a seu pior grupo de eleitores: neonazistas e supremacistas. O uso das palavras resulta de uma estratégia mais ampla de comunicação. Sumiram do site da Casa Branca as áreas dedicadas a mudanças climáticas, aos direitos das minorias LGBT e até mesmo a versão em espanhol. Em lugar delas, os planos de governo de Trump estão agora apresentados em torno da expressão “America First”, agora usada como um slogan populista em defesa dos empregos e interesses do “povo americano”. A máquina de propaganda de Trump começou a funcionar logo no primeiro dia. Ele já elegeu o adversário principal de seu governo: a “mídia”. Diante das evidências eloquentes de que sua posse atraíra bem menos público que a do antecessor, seu porta-voz despejou no microfone uma série de mentiras – chamadas por sua ex-chefe de campanha de “fatos alternativos”. Nada muito diferente do que faziam, aqui no Brasil, os petistas que chamavam o mensalão de “invenção da mídia” ou que atribuíam o impeachment de Dilma a um “golpe da apoiado pela mídia”. No plano dos fatos reais – não os “alternativos” –, a estratégia de comunicação de Trump impõe um desafio inédito à imprensa. Ao disseminar mentiras, que contam com a simpatia de legiões de simpatizantes beócios nas redes sociais, Trump captura a agenda. Desvia a discussão das questões concretas para um embate contra os meios de comunicação, seu inimigo imaginário predileto. Nada disso teria muita relevância se a imprensa americana não mordesse a isca. Ou se estivesse imune a críticas – e não está. Desde o início, o jornalismo teve dificuldade para entender a dimensão do fenômeno Trump. Depois da eleição, muitos veículos entraram numa histeria alarmista. Pintaram um quadro em tons cinzentos de seu gabinete e embarcaram de modo acrítico nas acusações sobre as ligações de Trump com o presidente russo, Vladimir Putin. Ao publicar, sem verificação alguma, o dossiê sobre as relações entre Putin e Trump, o BuzzFeed apenas jogou água no moinho das teorias da conspiração de Trump contra a imprensa. “O dossiê pode até conter verdades obscuras, mas a própria forma como foi entregue aos americanos que leem notícias o lança em descrédito, mais ajuda Trump a se desviar de alegações legítimas que o coloca contra a parede”, escreveu Ross Douthat em coluna perspicaz sobre Trump e a imprensa no New York Times. É importante notar que o mesmo Trump que disparou contra a “mídia” em seu discurso na CIA usou seu meio de comunicação preferido, o Twitter, para garantir o direito de protesto aos que discordam dele. Não é pouco para alguém conhecido por não ceder um palmo em qualquer briga. Será fundamental que o jornalismo profissional aprenda a enfrentar a propaganda no governo Trump. O melhor é trabalhar direito e esquecer suas provocações. Desde que as liberdades de manifestação e de expressão sejam preservadas e desde que as ameaças de impôr leis antidifamação ou de cortar o acesso à Casa Branca se mantenham no campo das bravatas, a comunicação se tornará um tema lateral no governo Trump. As questões reais, as que realmente preocupam, são as que menos têm sido discutidas na imprensa. O nacional-populismo de Trump representa uma ruptura com as visões predominantes nos últimos 70 anos sobre o papel dos Estados Unidos. Desde o final da Segunda Guerra, segundo narra Walter Russell Mead na Foreign Affairs, duas ideias sobre o papel do país disputam a política externa. Hamiltonianos acreditavam que os Estados Unidos deveriam estar no centro da ordem econômica global, no lugar do Reino Unido. Preocupavam-se acima de tudo com a segurança e o equilíbrio financeiro. Wilsonianos acreditavam que o país tinha como missão criar uma ordem liberal global baseada não apenas na economia, mas também em valores como democracia e direitos humanos. Apesar das diferenças, ambos viam os Estados Unidos no centro de uma ordem global maior. Eram intervencionistas, em oposição ao isolacionismo que caracterizara, ao longo da história, os jeffersonianos. Para estes, o país deveria economizar recursos e definir seus interesses de modo mais estreito e realista. Trump representa não apenas uma volta ao isolacionismo jeffersoniano. “O populismo distintamente americano que ele defende tem raízes no pensamento e na cultura do primeiro presidente populista, Andrew Jackson”, diz Mead. Para Jackson, o isolacionismo não era apenas uma questão pragmática. Ele não via o país como portador de valores universais, apenas como a nação do “povo americano”. Deveria se preocupar só com o que ocorresse dentro de suas fronteiras. Isso significa não apenas que Trump romperá tratados comerciais ou que imporá medidas protecionistas. Não apenas que mudará o eixo das relações americanas, que se afastará da Otan ou que se aproximará da Rússia para enfrentar o avanço da China. Tudo isso é verdade. Mas o verdadeiro projeto do governo Trump não está fora, mas dentro dos Estados Unidos. Ele consiste numa reação à onda multicultural das últimas décadas, cujo objetivo era erguer uma nação aberta, construída em cima da diversidade, que superasse as divisões sociais e raciais profundas que marcam a sociedade americana. Em vez disso, o resultado foi a histeria politicamente correta – um sistema bizantino de garantias e proteções a minorias, uma barafunda de privilégios oferecidos de acordo com as várias identidades. Diante da falta de perspectivas de pertencer a alguma delas, a “maioria silenciosa” também se constituiu num grupo identitário em torno de Trump: o tal “povo americano”. Sua reação almeja o retorno a um passado idílico, a um tempo em que a América era grande. Mas isso é impossível. O futuro jamais será igual a nenhum passado – nem ao de Lindbergh, nem ao de Jackson, nem mesmo ao de Reagan que anima os republicanos. É isso, no fundo, que assusta tanto em Trump.

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